14 maio 2008

Inveja e culpa em meio à infertilidade

Desde que nascemos nos são passados valores por nossos familiares para que possamos ser “boas meninas” e, no futuro, “boas mulheres”. Assim, são esperados pensamentos, atitudes e sentimentos “nobres” para sermos aceitas e amadas pelos que nos rodeiam.


Ser amável, educada e gentil; não sentir raiva, ódio ou inveja são alguns dos exemplos de qualidades esperadas para pessoas consideradas “boas”. Porém, sentimentos menos nobres também fazem parte do mundo emocional de todas nós, e, no entanto, nem sempre podemos e/ou conseguimos reconhecê-los, o que pode causar diversos danos emocionais.

A vivência de infertilidade é por demais frustrante e, na maioria das vezes, traz em seu bojo sentimentos de raiva (por exemplo, quando perguntam por que você e seu marido não têm filhos), inveja (quando uma amiga engravida assim que pára de tomar a pílula), sensação de fracasso (por tentar engravidar todo mês e o “não” vir confirmado a cada menstruação), entre muitos outros.

Todos esses sentimentos, rechaçados pela sociedade e – quase sempre – por nós mesmas, em vários momentos são experimentados e logo em seguida bloqueados, não sendo permitido que tenhamos contato com eles para não irmos contra um modelo ideal que os outros sonharam para nós.

Lembro-me de uma paciente que se culpava muito por invejar a irmã, que engravidara antes dela, e, a cada menstruação, acreditava estar sendo castigada por Deus por esse sentimento. Outra paciente suportava calada todas as cobranças de amigos e familiares por receio de ser indelicada caso dissesse que não queria falar sobre esse assunto, quando, na verdade, este cabia somente a ela e ao marido.

Há necessidade de certa flexibilidade emocional e permissão para que alguns sentimentos hostis possam ser reconhecidos e vivenciados sem culpa em meio à dificuldade de gravidez. Nossos sentimentos e atitudes nem sempre são “enobrecedores” e nem têm obrigação de ser. Sendo menos rígidas e mais tolerantes com nós mesmas, abrimos a possibilidade de vivenciar a totalidade de nossas emoções, boas ou más, tornando-nos, assim, mais humanas.


fonte: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/


2 comentários:

J. ROBERTO BALESTRA disse...

Esileda, achei muito bom o texto. Realmente a fertilidade é um fantasma para a maioria das mulheres. Todavia, acho que não deveria ser assim; não há coisa mais cruel do que a gente ficar pretendendo ser ouvido pela natureza para que ela reveja o "projeto" de onde nos tirou. Esileda, a floresta é imensa, mas observe, cada árvore tem sua história original; aroeira é aroeira, eucalipto é eucalipto... Beijão pr'ocê.

Chuvinha disse...

Pequenos sentimentos fazem parte do ser humano.